Lembraçaiada.

Lembrei-me de fatos da infância,
De coisas quase impossíveis,
Acontecimentos que a mãe esqueceu.
A viagem de trem quando tinha dois anos,
A locomotiva que soltava faíscas,
O pai que  ajudava a olhar pela janela.
Aquele colo seguro, o olhar vaidoso da mãe.
O cinema, a primeira sessão, o balão vermelho.
O urso de pelúcia que veio de longe, amigo de sempre.
Durou tanto que se desfez de tanta velhice.
Cinquenta anos de vida. Bom para um urso.
A casa da avó em Rio Preto, o cheiro de limpeza,
Aquele chão de terra batida, o tapetinho branquíssimo
Que enfeitava a porta da cozinha, perto do fogão de lenha.
As carnes defumando, os móveis brilhando, lençóis alvos,
Quarados na grama, rodeados pelas galinhas, respeitosas.
O pé de manga rosa, o de carambola.
A primeira novena, légua e meia de lua cheia.
São Francisco nos esperava, São José nos guiava.
Os bois de sentinela, as vacas descansavam,
O cavalo dormia debaixo do pé de nada frondoso.
Nenhuma luz artificial, caminhos claros,
Estrelas feito açucares, derramadas no pano royal
Cintilavam a cada centímetro daquele céu azulão,
Parecia um memorial, uma elegia divinal.
Quando amanhecia, o leite descia e alimentava
Os bezerros de todas as cores, com todo zelo.
Aos três anos vi um céu azul anil, com ondas do mar.
Jamais vi esse céu novamente.
Hoje eu o vi, na fotografia do amigo.
Um céu com ondas do mar, só para provar
Que mesmo depois de tanto tempo,
Aquele céu andou do interior até a praia
Para me mostrar que não era imaginação.
De saudade, senti o cheiro de querosene do lampião
Na felicidade de minha inocência, na re-união.
Saudades de mim e da minha infância,
Motes e motivos, temas e sentidos de minha visão.
Um dia fui criança, lembro-me de tudo,
Esqueço a cada minuto o minuto que passou,
Mas guardo comigo a marca sublime
De um tempo de mãe, pai e avôs.

 

Fotografia incomparável de Cláudio Louro.

 

 

O Lago de Letras.

Há amores que não são para ser.
Há amores que não deveriam ter sido.
Pão fresco, depois pão amanhecido.
A poesia não é para ninguém quando nasce.
A poesia é para todos. Os amores não.
Os amores são para os escolhidos.
Simetricamente compostos, envolvidos,
Fechados secretamente no invólucro da alma.
Recolhidos aos seus próprios segredos.
Há o degredo. O auto e o imposto.
Há sempre na memória um rosto.
Espelho de água. Outro mundo nele.
Amores que imaginamos poderem ter sido.
Amores que agradecemos não terem vindo.
Pão repartido. Pão traído.
A poesia é para o mundo. Não eleva ego.
É outro assunto. Dá visão ao cego.
Abertos descaradamente na praça.
O amor e a poesia são libertos.
Andam caminhos preferidos.
Pairam na imaginação.
Podem estar na lama do fundo lago,
No lago de lama das ruas marginais,
Na voz rouca do cigarro,
Numa música no carro.
Na almofada macia da mentira.
O amor é criação da dor,
A poesia é da cicatriz.
Homem se torna ator, mulher atriz.
Todos representam seus complexos.
Com o egoísmo natural dos possuidores.
O amor pode passar, a poesia é concreta.
Ele se perpetua nela. Ela engravida dele.
E assim a vida continua.
Observados pela câmera da grua,
Aquela que chamam de Deus.

 

Imagem de Cláudio Louro.

 

 

Outra Praia

O mar virá e tudo levará.
Outra praia. Em outro canto.
Praia sempre haverá.
Muda-se de lugar.
Mar sempre existirá.
Outras casas. Outras pessoas.
Outras florestas. Arestas sem fim.
Nem tudo é ruim.
Talvez um sim seja pior que o não.
A contradição da contradição.
Praia sempre haverá. É um anexo.
O mar é a calma em pessoa.
Por vezes balbucia, denuncia, avança.
Com a calma da flecha que se lança.
Flutuando ao seu destino, continua flecha.
Quando chega ao alvo continua flecha.
Nem se sabe flecha a flecha.
Praia não sabe do mar.
Maré alta cobre. Rasante descobre.
Objeto de uso natural.
O sal permanecerá. Conserva a ferida.
O sal é o fracasso exposto.
O sal do Bem tempera.
Haja espera.
O sal é uma barriga de gravida.
Na gestação de outra praia.
Dói o parto. Nasce uma filha.
Esquece-se a dor. Admira-se outra imagem.
Muda-se a paisagem. Mantém-se a paternidade.
Na morte da praia antiga resta a dignidade.
O mar levará o que um dia foi prazer.

 

Imagem de Cláudio Louro.

 

 

Museu

A partida foi lenta,
Como cabe às despedidas.
Feito um museu sem coisas antigas.
Mas conserva o nome de museu.
Foi lenta a partida,
Foi doendo aos poucos.
Como quadros loucos, imagens sem noção.
O amor foi esvaindo do seu lugar,
Lentamente, como doce de leite.
Tão doce que um dia amarga.
Restou o balaústre, lugar de pensar.
Encosto onde se solta a imaginação,
Perguntando onde foi a emenda,
A descostura que abriu a tenda,
Que fez embranquecer o coração.
Tanta vista, tanta gente,
E a postura descontente da perdição.
A partida foi lenta,
Como cabe à dissimulação.
Eu me fingindo forte,
E tu, já longe, em outra embarcação.
Feito museu, guardo as coisas antigas.
Cabe em tudo de mim a saudade.
No olhar só a distância.
Tanta árvore, pouca sombra.
Tanta água, eu e a sujeira da solidão.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Flor e vazo.

A orquídea foi embora,
Passou por tantas mãos,
Tantos braços, tantas mentiras.
Dizem-na falsa, pobre flor.
Tão linda.
Veio a rosa branca,
Tanta paz nova, tanta esperança,
Tanto parir, tanta renúncia.
Dizem-na breve, pobre flor.
Tão fugaz.
A pequenina flor amarela se impôs,
Esperou tanto tempo,
Tanta filosofia, tanta maternidade,
A própria imagem de Oxum.
Dizem-na espiritualizada, rica flor.
Tão vaidosa, porém.
Resta então o vazo, aquém.
Ele que a tudo acolheu, que a tudo suportou,
Insignificante recipiente,
Eterno coadjuvante das estrelas.
Dizem-no vulgar. Suporte da beleza.
Enfim, trincou. Lembrou-se dos amores,
De tantas flores, todas com belas cores,
Todas sem sementes.
Dizem-nas passageiras.
Os outonos existem para todas.
Até que as polinizem os passarinhos.
E então elas se reproduzirão idênticas.
O vaso hoje é apenas um ninho.
Aguarda carinho. É objeto deixado,
Mesmo de boca aberta para cima,
Esvai-se de sede, machucado.
Queria o tempo das flores,
Mesmo que apagado, queria o tempo
Da beleza dos arranjos por dentro e do lado.
A beleza está em quem vê.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Deus é um Horizonte.

Que sabe a lama do fundo do rio
Que não sabe minha dor?
Que sabe grama do planalto frio
Que não sabe meu amor?
Que sabe a folha da araucária mais alta
Que não sabe o meu sentimento de falta?
Viajo na loucura, como qualquer louco.
Internado no hospício da metrópole,
Olhando a multidão crente de ser sã.
A voz é artesã da resposta,
Mas a pergunta é muda.
O inconsciente pergunta,
Meu peito insufla na mistura,
Responde minha boca àquilo
Que se quer ouvir, e não dizer.
Como o verde de todos os matizes,
Como o horizonte que cabe na retina,
Mas não cabe na mão do dono.
O lago, a ilha, a montanha,
Tudo é parte da lama que os sustenta.
Só o céu é flutuante e autônomo.
A nuvem de passagem, carregadora de sombras,
Entregadora de águas abastecerá a tudo,
Descansará por pouco tempo nos braços do vento
Até cair na terra firme.
Então, de pura e imaculada,
Será lama forjada para fazerem-se outros homens.
Outro deus virá, e a autoria humana reivindicará.
Pobre deus que em sua soberba, nem imagina
Que veio da lama e pode morrer na próxima esquina.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Aura da aura.

Ela paira sobre a cidade,
Como quem sabe de seu voo.
Olhos profundamente tristes,
Um chiste, um lapso pequeno,
De quem já tomou veneno
E mesmo sabendo da alegria,
Evitou seu riso contínuo,
Abriu mão de seu par.

O sorriso não é aberto,
Mas sorri a quem está perto,
Numa simpatia que imanta,
As almas nas almas, o toque,
O grito de um nome na garganta.
Um amor que ficou em torno,
Um coração que arde tal forno,
Sabedora da solidão ad aeternum.

É aquela luz, a íris azul, o prana.
O princípio da vida, o aborto que engana,
A fama sem efeito, o vazio do lado direito
Do leito morno, suado, sem gana, sem voz.
É apenas a cidade, onde ela paira sem vaidade,
Escondendo um amor para sempre,
Sem nunca tê-lo ávido nem havido.
É a rotina da retina azul,
A aura da aura do coletivo, ad hominem.
Mentiras para si mesmo. Vida a esmo.
Passagem.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Passarada.

Mudem tudo.
Assumam a Terra.
Sítio mais baixo.
Apenas acima do subterrâneo.
Mas, não mudem o céu.
Ele não tem dono.
É do voar espontâneo.
Dos pássaros da eternidade.
Das ondas de lembranças.
O céu é matéria densa.
Onde navegam os leves, as crianças.
Azul por ilusão de ótica.
Negro para destacar a Luz.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

As Pontes

Às vezes sinto com pena,
A passagem da alma pequena.
Ela atravessa a ponte
Que sai da lama e a leva adiante.
Mas inculta, não assimila a passagem.
E vai para o nada.
A alma pequena leva consigo um corpo.
Misto de carne e estorvo,
Caminha para o outro lado.
Do outro lado o nada a aguarda.
Vejo almas que se perdem no paraíso,
Pelo simples fato conciso, de nada entenderem,
De jamais manterem a gratidão, pelo dia,
Pelos encontros, os acasos felizes.
Que cruzaram a ponte para esta direção.
E na curva do rio, onde a ponte une de tudo,
Passam as águas de cada minuto.
De nada valoram o tempo.
Desconhecendo a ponte, admiram o viaduto.
Nasceu um dia como alma brilhante,
Perdeu-se no caminho da infância,
Teve certezas etéreas na juventude,
E no momento de uma etapa de plenitude,
Mediu-se pelo apego, engano ledo,
Daquele que julga com várias medidas,
Desconfia, e duvida do caminho.
Mas, a nuvens passam acima,
E caminham no mesmo tom gris
Para o outro lado da ponte.
Levam junto o prenúncio de tempestade,
Fato inerente ao pensamento acovardado.
E alma poderia apenas ter felicidade,
Se com a ausência de vaidade,
Entendesse que viver é simplicidade,
Seguir à frente, sonhando sonhos,
E esquecendo-se da fictícia realidade.
A ponte é metáfora, a realidade é imposta.
O realista é, antes de mais nada, um escravo.
É apenas uma alma que levará seu corpo envelhecido
E a sensação de ter perdido o pulsar do coração.
Será elemento entumecido, que amaldiçoa a criação.
Da lama veio, para o nada irá.
Estarão sempre a culpar o construtor.
São tantas as pontes, e pouca visão da linda paisagem.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

“Misturança”

Um raio mistura-se à cidade,
Num espaço de afinidade
Entre a estrela e o meteoro.
A cidade acorda aos poucos,
Sem perceber o trabalho do infinito.
Meu amor, ora contido, se prostra.
Minha alma ajoelha diante do Tempo.
Em algum canto, nasce um rebento,
Que não é meu. Nem o conheço.
Mas, é meu pequeno irmão, diz.
O corte de giz, a raiz de minha existência,
A carga elétrica e a matéria em movimento.
A cidade está para dentro.
A aurora vem com a brisa,
E traz promessa de luz e calor.
A mente embutida na tarefa a vir,
Na sorte tinhosa que teima,
A mão amorosa que doa,
A proa do barco que volta,
A bola que rola na alegria,
A fantasia que disfarça,
Homens de várias cores
E uma só raça.
O raio caiu na armadilha,
O meteoro segue sua trilha,
A estrela volta amanhã.
E a vida vã apaga algumas lâmpadas,
O cão se espreguiça, sorri e anda.
A vida continua nua de cenários.
Os pés continuam no chão.

 

Fotografia inimaginável de Cláudio Louro.