Ben-te-tenho.

Observando 2

Observava a cidade
Do alto de sua integridade de ave.
Passarinho que olhava.
Perguntava-se o que faria por hora.
Aguardaria a parceira ou encantava-se
Com as alturas dos ninhos de concreto?
Onde ela estaria? Numa varanda daquelas?
Provando alpistes e quirelas?
Bebendo em bebedouros doces?
O mar, por vezes, o distraia.
Mas, voltava sua preocupação.
Tanta demora. Quem sabe um gavião?
Não. Maus pensamentos não.
De tanto olhar a cidade,
Começou a imaginar maldades.
Sobre a mangueira aos seus pés,
Sentia a brisa e a direção das correntes.
Bem-que-disse o bem-te-vi.
Lugar de passarinho não é aqui.
Tanta demora. Quem sabe o gato.
Não. Maus pensamentos não.
Observava a cidade de fato.
Passarinho que pensava.
Passarinho que aguardava.
Em meio a outras revoadas,
Buscava a amada.
Coração bateu mais forte,
Veio do norte um pio conhecido.
– Passarinho, bem-te-vejo.
– guarda-me um beijo.
– chego em breve-te-ver.
Passarinho fez um solfejo.
Raspou o bico no galho verde.
Ah! Que bom-te-ver!
Ben-te-quero minha Ben-querida.
Já estou ben-te-vendo…

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Um Dia Normal.

nascer

Nascer é imprescindível.
Toda aurora é previsível.
Subir aos céus como o faz o Sol,
É encantar amores, sobrepor-se ao fim.
O meio do dia é risível.
O meio da noite é imprevisível.
Na calada noturna paira amores e traições.
O silêncio que emana do poente,
É próprio daquele que guerreia silente,
Diante da liberdade que se ausenta,
Da prisão que felicita e ostenta
A mais vil das tormentas.
Os dias nascem para todos.
Caminham os homens previsíveis.
Acordam ao meio do dia os que fazem poesia,
Vão adormecer os filhos da Heresia.
Todo santo dia.
Passa a vida, estada temporária.
Enquanto o Sol desfila sua magnitude,
O tempo decresce e normaliza a atitude.
Os pobres geraram pobres.
Os ricos geraram ricos.
Alguns serão nobres.
Outros baterão cabeça,
Servirão a mesa e o corpo.
E pela servidão, pedirão perdão
Nos dias santos. Inanimados nas praças,
Nos bancos da rua, sorrindo para o nada.
Infeliz estada essa.
Onde o Sol, que nada promete,
Vê dourado o escravo esperando a promessa.
Precisa mais o homem de Deus,
Que Deus precisa dos homens.
Se Deus fosse Deus, acolheria os seus.
Nos tempos todo que passa o Sol
Jamais se viu tantas ironias.
O homem sustenta Deus,
Deus sustenta a minoria.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Céu Negro.

ocaso

Céu negro. Todo céu o é.
Deixa-o dourado o teu olhar.
Teu riso farto nessa boca úmida.
Isso o deixa dourado.
A luz do Sol, o oxigênio, a atmosfera em si,
São apenas cenários para teu corpo.
Universo singular é o corpo.
A pluralidade de teu canto rouco,
Tantas estrelas e manhãs soaram
De tuas palavras de boa noite,
Do teu silêncio de bom dia.
Por detrás de tanta nuvem,
O azul de nosso lençol.
Ao poente a revoada.
E a renda da fronha na borda de tua face.
Ao cair da noite teu corpo ilumina dentro mim.
Cheiros de lavanda e de um leve jasmim.
Sol cor-de-rosa. E prosa sem fim.
Céu negro. Todo céu o é.
Vejo pelos teus olhares
Os mares de lugares que jamais vi.
Pela manhã te acordará o bem-te-vi.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

Uma Abadia de Marias

Abadia

No ocaso do mundo e de mais um dia,
Uma abadia. Repleta de casos e de Marias.
Monjas solitárias, talvez não por quererem,
Mas por revelia ou pura simpatia.
Maria da Conceição, Maria de Guadalupe,
Uma evoca o coração, outra esculpe.
Maria, a Aparecida, Maria, a Compadecida,
Maria Intercessora, Maria professora.
Maria de Lourdes, Marias rudes.
Tantas Marias na abadia.
No ocaso do mundo e de mais um dia.
Maria Madalena ou Maria Bethânia,
Ungem os pés dos santos, usam mantos,
Caem em prantos na abadia.
Choram seus filhos, seus irmãos,
Maria da Graça, que acalma a praça,
Maria do Carmo que cura a ferida,
Marias da abadia, mulheres no ocaso.
Final de um dia, mães do mundo,
Parideiras das raças, ternas e calmas.
Maria do Socorro, Maria Goretti,
Por todos os cantos Maria reflete.
Maria de Lázaro, a agradecida,
Maria de Cleófas, a arrependida.
Marias da abadia, Marias de Nazaré.
Maria de Fátima, mulheres de fé.
No ocaso do mundo e de mais um dia,
Uma abadia. Repleta de casos e de Marias.
Falem por nós Marias, Maria mulher.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Dicotomia

verde

O poeta é personagem, cheio de bagagem.
O homem que há no poeta é bobagem,
Mero descritor da sua e da alheia dor.
O poeta é um amealhador.
O homem é separador…
O meu, o seu, o nosso, amém.
Poeta mesmo é de ninguém.
O poeta é criador enquanto cria a dor,
A sua e a alheia, enquanto amealha a falha,
Enquanto fala de amor.
Há de ter paz o poeta, para que crie sua guerra,
Sua batalha efêmera, que vingue a sua não complacência.
O poeta perdoa, adora a dor da qual é adorador.
O homem no poeta não. Homem é julgador.
O poeta flutua. O homem precisa comer.
O poeta recua. O homem se põe a correr.
O poeta já está. O homem teima em chegar.
O poeta cria o lugar. O homem precisa ver.
O poeta é uma mentira de verdade.
O homem é uma verdade de mentira.
Enquanto um dá a vida, o outro tira.
O poeta quer o verde, o homem a esmeralda.
O poeta quer o azul, o homem a safira.
Poeta é floresta, homem é aresta.
Um se alegra com a festa, o outro é o que resta.
O poeta e o homem no poeta – louca dicotomia.
A fantasia da realidade e a realidade em fantasia.
Um é manchete fria, outro é poesia.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

O Jardim de cada um.

Casal

Beija minha mão com a fleuma de quem morde.
Mas, respeite meus calos de tanto colher sonhos.
Siga-me silente na lida do dia a dia,
Não reclames dos ditames do destino.
Se já és mulher feita e esperavas outro fardo,
Sou e sempre serei menino, o que mais te ama.
Na colheita ou na rede, como cabe a um homem.
Não quero a receita comum, a de quem provém.
Quero a liberdade de quem sustenta um bem.
Siga-me no jardim. Deixe que eu olhe as pragas.
Colhe as flores raras que flutuam no ar.
Todo jardim é um mar. Profundidades ímpares.
Assim como também é o par. Para tantos basta olhar.
Entender as vagas entre uma e outra flor
É crescer para o outro, enquanto se junta o buquê.
Nenhuma flor, sendo solitária, é feliz.
Há de se ouvir o que se diz. Fazer arranjos, planos,
Apaziguar a terra, louvar a companhia.
Andar e colher na mesma sintonia.
Conviver é florescer a harmonia.
É transformar em luz todo tipo de energia.
É ouvir o silêncio do outro e adivinhar.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Biruta.

Biruta

Nariz virado para onde aponta o vento,
Num arremedo, faz uma firula, dança a biruta,
Num céu de brigadeiro, de seresteiro diurno.
Nem pensar em coturno. Melhor mudar o rumo.
Venta para lá biruta, vai, me escuta,
Desse lado ninguém voa.
Mostra onde pouso, não me engana.
Vento na cara. Vento de proa.
Vou tentar mais uma vez. Agora vai.
Saio voando feito demente, rodopio no eixo,
Meia lua de dia, adrenalina e sem esquina.
Tudo é amplo, até meu medo.
Manda biruta, que pouso onde indica teu dedo.
Cansei de pé no chão. Compreendo seu argumento.
Dança biruta, saco sem fundo de vento.
Tal e qual meu peito, vazando sofrimento.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

Areia.

Toda nua, com o dedo em riste,
Olhou-me e apontou a rua.
Coisa triste. Verso pobre.
Olhei o futuro e vi o vazio.
Tudo tão lindo, o sonho escolhido,
E tudo vazio, como se o vento escondido,
Entre um segundo e outro,
Tivesse tudo varrido.
Paira o silêncio doentio.
Sem destino. Escuta-se o mar.
Percebe-se o coração bombear
A lágrima salgada e confundida.
Busquei pela flor vermelha,
Cor de fogo e de telha.
Não a colhi. Parei ali.
Pensei no calor e no telhado.
Olhei o céu azulado, tudo tão lindo,
O sonho escolhido, e tudo vazio.
Caminhei esperando a chuva,
Só encontrei estio. A vida por um fio.
A roupa do corpo. O passo sem rumo.
O olhar sem prumo.
Guardei no maço de cigarros
As últimas palavras e um pigarro.
E sem estradas a seguir, sem faro,
Encosto na árvore que sombreia
O meio fio e o fio da última meia.

 

Fotografia de Cláudio Louro.