Desastre.

Momento de drama,
Os celtas tremem.
A imensidão azul se torna cinza,
Cai e inverte a vida.
Onde chão havia, água brota,
Onde estrela se via,
Muda-se a rota.
A montanha chove para cima,
Nuvens parecem o mar.
Vapores emanam das verdes árvores
Para o cinza negro da tempestade.
O mundo acaba de acabar,
Começa a recomeçar
Num pleonasmo de energias,
E o poeta em suas fantasias
Pode enfim dizer sua profecia:
”O céu caiu, a Terra subiu,
Feliz de quem não viu.”
O povo coalhado, mesmo molhado,
Vive apinhado no sobrado do lado.
Felizes por não terem visto os matizes
Que irromperam cicatrizes
Provocaram deslizes.
Forma momentos de intempéries e crises
Que santificaram meretrizes
Crucificaram as freiras,
Mataram o sábio,
Morderam o lábio num ato falho
De covardia divina.
Era a sina.
Sons que vinham de baixo e de cima.
O cataclisma final.
Mais uma vez venceram o bem e o mal,
Num acordo bilateral.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Lua e Passarinho.

Lua e Passarinho –
Um velho caminho –
Movimento de debandada –
Qualquer céu é morada
Onde meu corpo enquadra.

Onde meu corpo enluarar –
Um velho movimento –
Debandada para a morada –
Onde qualquer céu me enquadra.
Lua e passarinho.

O céu da debandada –
Meu corpo em movimento –
No velho que me enquadra
Neste céu do caminho.
Lua e passarinho.

O corpo voa sozinho.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

 

Seu Destino Cretino.

Realidade estranha,
Casa com casa se emaranha,
Numa sequência pagã,
Onde até o espaço se envergonha.
Pessoas lá dentro.
Clausura de convento.
Cegueira e tormento,
Títeres sem argumento.
Aguardando a ordem de outro evento.
É o tormento. Vida inútil.
E na tela o assunto fútil,
Enquanto se perde a personalidade,
Comprando a utópica vaidade,
Mescla rara e mortal,
Como absinto, tal e qual.
Vítima feliz. Morte pela raiz.
E um sorriso de aprendiz.
O real incomoda.
Melhor a escravidão que acomoda
A ilusão, a falta de visão e a paixão.
Sofrer para este povo é alegria.
Basta o anti-inflamatório e cessa a nefralgia.
Um dia chega o tratamento canal, sem anestesia,
Durante o carnaval, é só alegria.
Durante a quaresma será empalado,
Via anal, como cabe ao prazer do senhor do Mal.
E o pastor dirá que é castigo de Deus,
E cobrará para vomitar na cabeça rasa,
Da ovelha idiota que sem razão,
Instruirá a progênie para beber do livro santo,
E a continuar seu pranto risonho,
Enquanto escreve seu futuro de penúria
Com a alegria de quem sorri quando dói.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Lótus e o Mágico.

O mágico da Piedade,
Em toda sua bondade e silêncio,
Mostrou o “padma”, o Lótus.
Como poucas almas, calmamente,
Antes da flor, fez a balsa.
Alça que liga o lodo, seu maior alimento,
Ao deslumbramento do rosa claro,
Jogando-se para o alto, um salto para a caridade.
Homens deveriam ser assim.
Então, em alegria e reverência,
Ao passarem se abririam as flores,
Perfumando o caminho, energizando a imagem.
O mágico da Piedade.

No lótus, navio do espírito,
Representam-se o desejo do amor carnal,
Que desabrocha em rica flor, ligando o espiritual.
Resumo de uma existência.
Sinal de resistência. A alma segue para a luz.
A tenacidade feminina, sem a qual
Nos cobriria o umbral, mulher perfeita,
À sabedoria sempre nos conduz.
E o caminho a caminhar é de pureza,
Elegância, graça e perfeição.
Pelo feminino chega-se à evolução,
Confirma o mágico da Piedade.

Meu coração em seu coração.
Meus pés andam em sua mão.

 

Fotografia do Mágico.

 

 

Minha Alma Suja.

Mistura 4

Minha alma, tão suja de humanidade,
Só procura uma saída, uma casa longe.
Um lugar verde, com ar de pó de café.
Um lugar onde um homem possa andar,
Sonhar, amar e ter fé.
Com árvores em pé, e pé de frutas,
Perto de algumas trutas, que nadam
Rio acima, para desovarem outras trutas.
Minha alma, tão suja de humanidade,
Procura uma saída, uma casa longe.
Um lugar onde se trocam mudas,
Que tenha bolo de fubá, e o cão amigo
Ande livre, rabo a abanar, sorrindo.
Um lugar onde não se feche porta,
Que a verdura é colhida na horta,
E a galinha avise que o ovo está pronto.
Um lugar de encontro. Longe da sujeira,
Da humanidade rasteira, da feira.
Longe dos templos, das heresias,
Perto de uma gaiola aberta.
Minha alma, tão suja de humanidade,
Procura um passarinho despertador,
Um Bem-te-vi, um Sabiá.
Uma arara vermelha a me observar.
Uma estrela particular, que cante comigo
As canções para o luar.

 

Imagem de Cláudio Louro.

 

 

Dimensão.

dimensão

Em qual dimensão te encontrei?
Foi perpendicular do tempo.
Que te amei horizontalmente, na distância medida,
Na comodidade do caminho.
Como um rio.
Que te amei verticalmente, na audácia da subida,
No calafrio de uma descida.
Como uma montanha.
Que te amei lateralmente, por todos os francos,
Como a visão de uma mosca.
Pelo tempo finito de uma vida.

Em qual dimensão te encontrei?
Foi na transversal do tempo.
Que amei depois do horizonte, na distância precisa,
Na flutuação do pensamento.
Como um Oceano.
Que te amei nas altitudes e profundidades, num “sem fim”.
Sem gravidade, ouvindo Bach.
Que te amei através dos cantos, das cordilheiras.
Como um fóton vibrante,
Pulsando em tua alma, como parte dela,
E ela um todo do meu infinito ínfimo.
Pelo tempo medido e infinito do amor meu.

 

Fotografia intrigante de Cláudio Louro.

 

 

Aquárius.

Aquário

A morte do ego, o fim do ar.
Ele retorna aguando as sementes,
Trazendo vida à alma, ao corpo não.
Final de ciclo. Outra esperança.
Um bem maior. Um portal de entrada.
Um irmão.
A água dissolve o deus do homem.
Os deuses encarregaram o agueiro:
– Prove a que a morte é o futuro.
O recomeço.
É o agueiro, destilando, purificando,
Quebrando as religiões humanas.
Ilusões.
É a abertura de um novo tempo.
É a ciência e a delicadeza.
É o planeta que gira noutro sentido.
É a evaporação do Mal, abertura para Peixes.
É o Lava-pés e o lava-mundo.
Conclusão.
Do amor à luta, pois amar é luta constante.
É o bem comum. É o para todos.
É a equanimidade. O porvir de um novo caminho.
É a quebra de paradigmas, não importam os meios
Se ao final há Luz, é o Sol de uma nova Era.
A esfera.
É o anti-horário, o que destoa,
É o coletivo em lugar da pessoa.
É o sem identidade, basta o Bem para a Humanidade.
Gêmeos ascende no horizonte,
Enquanto Leão serve de espelho.
Vapores de água transformam as lágrimas.
Bálsamos de Paz. O inesperado.
A morte do ego, o fim do ar.

 

Imagem de Jophra Chapmann sugerida por Bárbara Lima.

 

 

 

Finitude.

chapada

Finitude, te busco no nada que me encontro.
O nada que sinto, essa transformação em mim.
Falo, não ouvem, não importa.
Frase morta da idade. Quero a plenitude do fim.
Importo-me, mas não importo mais.
Sou o peso improdutivo das horas demoradas.
Uma ou outra poesia que nem lê a amada.
Nada. Apenas a plenitude.
Hoje entendo, a plenitude é o excesso de nada.
Apenas a memória, que não pesa na viagem.
Quero ir embora. Finitude, tempo de calar.
Hóspede em meu lar. O aparte. Descarte.
Apenas a visão interna daquilo que quero ver.
Externa minha respiração tudo que sei fazer.
Respirar. Até quando?
Por vezes perco o folego. Mas é apenas pela gravura.
Estar de verdade mesmo, só estou aqui,
Sentado no resto que de mim sobrou.
Quero e penso em ir, definitivamente.
Virar ausente, semente que germinará
Aquilo que não sou. Apenas aquilo que sonhei.
Portanto, irei leve. Pois deixo o sonho.
E sonho não cabe no inventário.
Finitude. Até o dia termina, grande sina essa.
E a Natureza em sua oficina, prepara outros,
Com maestria. Quero ir ao encontro do poente,
Sei que como ausente serei mais querido.
A finitude é o estampido no céu da boca.
Cria um sorriso eterno.

 

Fotografia falante de Cláudio Louro.

 

 

Sombra Alada

Sombra de mim

Minha sombra, minha parelha,
Voadora em linha, esquadrilha de dois.
Amada que saúdo, rompendo os caminhos,
Fixada nos meus atinos,
Alva auréola dos seios elegantes, finos.
Aonde vais eu vou voando igualmente.
Como alma aderente, brisa presente.

Minha sombra, minha silente guerreira,
Sumidouro do amor sentido, vivido,
Deixado à beira do acaso, como um vaso
Vazio para um dia usares.
Guardado com areia na clareira de uma prateleira.
Inútil como a opaca viseira dos olhos virados.
Exposto aos azares da “descomunhão”.

Lembro-me do teu beijo, do momento surpreendente,
Do primeiro dia que me tornei teu para sempre.
Pareado ao teu voo incerto, no museu, no breu,
Vago e iluminado artificialmente pela luz incandescente
Que atrai visitas, que admiram a obra prima que és.
Garça grega da mágoa, da minha ágora pulsante.
Só não sou mais seu por faltar mais eu.
E se outros “eus” houvessem, todos voariam com os seus.
Parelha. Branca cavala e única, corcel pardo sou, alados.
Animais puros. Lendas de nós mesmos. Estamos a esmo.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

O Índio.

Índio

Querem calar o índio,
Como calaram Anastácia.
A pintura de arte nos muros,
Pintaram de cinza.
Foram às portas pedirem a morte.
Por toda força de sorte,
Querem calar o divino, as velhas ranzinzas
Vestiram-se de amarelo, cantaram o hino,
E ignoraram a verdade, aplaudiram a maldade,
Sangram o herói.
E nos bares, o verão distrai o incauto,
Aplaudem o inculto, enquanto passa o vulto.
O vulto de uma nova ordem, uma nova revolução.
Meu irmão hoje me investiga, instiga minha ideologia,
Provoca meu clamor por uma invasão.
Invasão de outros irmãos desconhecidos,
Que tomem de vez a cidade da maldade,
Que retira a coberta do pobre, que nega cura,
Que invade terras, que entra em minha casa,
Que me toma por índio, que me amordaça e me cala.
Como se fez à Anastácia.
Pintaram o índio de cinza.
Soltaram os zumbis. Pagaram os ruins
Para matarem o juiz. Esse povo sem raiz.
Com ódio de quem é feliz.

 

Fotografia de Cláudio Louro.