Cantei.

cegonha

Cantei. Estava triste e cantei.
A tristeza ruim – foi.
A boa tristeza, que é lembrança – veio.
Invadiu as paredes, estendeu redes,
Cortou minha vida como um reio,
Batendo na ferida inda aberta,
E os seios expostos, sujos de terra, lama,
Não pareciam levantar da cama,
Eram seios de amamentar – mãe.
Cantei. Como sempre cantei na infância,
Mediado pela mãe, e pela saudade – debalde.
Daquilo que ainda não havia vivido.
Cantei a trilha sonora de toda minha vida.
Era feliz. Era aprendiz. Sabia de tudo.
Discursei na cozinha – cheiros e vazios.
O rádio e notícia que não acabava – palavra.
Cantei de cor e no tom. Ouvido absoluto das crianças.
Falei como um senador – a perda e a dor.
Mas dia chegou, fui jogado do ninho.
Montanha abaixo. Titubeei, mas voei – sempre com sua sombra.
Quem ouvia minha voz me protegia.
Identicamente voava abaixo de mim – movimentos.
Repeti as letras. Senti-as diferentes – cada dia.
A cada interpretação, em um lugar doía – outras paredes.
Outras cozinhas. Que não eram minhas.
Cantei a saudade de uma mãe que me perdia.
Mãe que sorria quando eu voava de volta.
Sorria. Para eu cantar pedia – a mesma melodia.
Um dia a canção se transformou em sinfonia.
Cantei até nos sonhos. A sombra me acompanha de cima.
– Agora.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

 

Estrelas.

fantasmas

Todos são estrelas na noite.
Todos que se foram. Mas inda estão
No brilho de cada vontade de se falar,
Na órbita em torno de nossa mente,
Todos no Céu que teimamos não olhar.
Meu amigo, minha irmã, meu menino.
Reunidos numa constelação, dadas as mãos,
Aos que se foram antes, mas inda estão.
Mãe, pai, velhos tios, avós e avôs.
Estrelas experientes. Abraçam a todos.
Contentes, entendedores das dores passageiras.
Não, não são pequenos grãos de areia.
São estrelas inteiras. Forram o Céu de calendas.
Uns com histórias, outros que já são lendas.
Na memória o medo de altura, da árvore alta.
Nas estrelas a sensação da “in-gravidade”.
Nada é grave. Toda paz se faz. Felicidade.
Não há alturas. Tudo é uno. Uma única luz.
Estrelas são grandes buracos no grande manto-Céu.
Como a lona antiga de um grande circo,
Deixam vazar a grande luz.
Cada faixo que escapa ilumina a árvore vermelha da vida.
Virar estrela é uma saída. Nenhuma alma é caída.
Toda estrela é uma eterna vida, escolhida.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Deus de Nada.

cachoeira

Enquanto a água escorria,
Escutava-se a ladainha.
Um gemido de fingimento.
Parecia o diabo imitando Deus,
Ou era Deus, que nada tinha,
Se fazendo passar pelo de canhoto.
Naquele matagal, naquela ladainha,
Enquanto a água escorria.
Enquanto a água escorria,
Via-se a rainha das trevas discursando
Para um bando de saltimbancos.
Era teatral, a rubro-negra dançando.
Ou era a Dourada se fazendo passar por puta,
Já que nada tinha, naquela ladainha.
Enquanto a água escorria.
O caos, de onde vem a ordem,
Escorria a água para cima.
Molhava a dona dos raios que se detinha.
Sem saber se mandava uma seta,
Se permaneceria em beta,
Diante de tanta balburdia naquela ladainha
Enquanto a água escorria.
Deus, desacostumado ao desconforto,
Logo se fez de morto diante da cachoeira.
Subiu para sua nuvem refrigerada
Enquanto a água escorria da cabeceira
Para dentro da mata fria.
O diabo gargalhava, saltava em alegria.
Tudo vai continuar na mesma ladainha,
Enquanto a água escorria.
O dono da montanha com seu martelo,
Chamou aos berros o menino da mata,
– “Vê se desbarata essa heresia”.
– “Põe veneno nas patas dele, ateie fogo”.
– “Faça feitiçaria com toda sua maestria”.
O cavaleiro de armadura corria légua de secas.
Encontraria Dorotéia enquanto a água escorria.
Fez-se a paz naquela estância de pouca importância.
Deus então volta a dar ordens e pedindo observância.
As entidades da natureza olharam a água que escorria.
Montanha abaixo, até o rio cristalino, caminhante ao mar.
Ignoraram esse deus de fantasia,
Que só se serve da euforia dos crentes e da ironia.
Continuaram na vida plena enquanto a água escorria.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

Amor Quieto.

olha-o-sapo

Quieto, sobre o lago manso,
Assim é meu jeito de amor.
Sobre o afeto, teimo no excesso,
Folha restante da sombra que fui.
A prole não vem, a alma rui,
O amor conclui na quietude
Que é preciso permanecer na linha,
De satisfazer-se amiúde, de um beijo rude,
De um afago desfeito, de um encostar breve
No peito que chia o cigarro da espera.
Meu amor é quieto, é mourão podre
Que não mais tranca porteira.
Meu amor é quieto, é pau oco,
Onde passarinho faz ninho, onde pousa a coruja.
Passo despercebido nas folhagens da família,
Com galhos que deram frutos, quieto no amor que cria,
Amor que gerou.
Observo a lentidão de cada tarde.
A umidade do lago me alivia a pele.
Mas, meu amor é quieto, é amor guardado,
Que a ninhada vai usar, cada um muito assustado.
A cada dia sou menor em meus voos.
Já não arribo mais. É sempre primaveril aqui.
Eu me leio e me surpreendo. Eu me vejo e pasmo.
Há mais gris em meus cabelos,
Mais pesadelos, menos espelhos, mais saudades.
Meu amor é quieto, não dá mais conselhos.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Sonho Estranho.

Beatles

Tive um sonho, sonho estranho,
Os Beatles voltando pela Abbey Road.
Falidos, tristes, com mala e cuia.
Num Agosto longo, João puxava Yoko,
Tentando fugir do assassino louco.
Paulo estava rouco de tanto cantar seus cantos,
Sem microfones, sem holofotes, um xote latino.
Jorge da Arribação e sua mala de papelão,
Guardava a última esperança de nunca mais viver de esmola,
Viola no saco, caatinga à vista e cansaço no passo.
Pairava o mormaço da partida.
Já se anunciava a maldita sina,
Calarem-se antes que a polícia reprima.
Londres é fria até mesmo no verão.
O tempo fez rodopio. Baixou-se o pavilhão.
Luto em todo reduto, tristeza em toda canção.
Acabou-se a emoção, a alegria.
Diante do portão não se entendia
A manifesta surpresa da magia do ano.
Dormiram livres e acordaram revividos em outro tempo.
Acaba Agosto do ano de dois mil e dezesseis,
Começa Setembro de mil novecentos e sessenta e nove.
Ao lado da Abbey Road o muro do cemitério.
E uma nova Primavera que se anuncia.
Na garganta, travado mais um impropério.
Tive um sonho. Sonho estranho de hipocrisia.
Os pastores reuniram o rebanho.
O acaso soltou o lobo.
As ovelhas balem “She’s love you”.
Todos pelados novamente, num “Hair” agreste.
Plínio Marcos vende pipoca em frente ao teatro.
E no retrato com faixa, posa Nosferastus,
Que defeca na América Latrina,
Não sem antes sorrir de nojo,
E libertar os demônios que cantam suas armas.
O tempo fez rodopio. Baixou-se o pavilhão.
Luto em todo reduto, tristeza em toda canção.
Os Beatles estão voltando para o Sertão.

 

Fotografia atual de Cláudio Louro.

 

Ben-te-tenho.

Observando 2

Observava a cidade
Do alto de sua integridade de ave.
Passarinho que olhava.
Perguntava-se o que faria por hora.
Aguardaria a parceira ou encantava-se
Com as alturas dos ninhos de concreto?
Onde ela estaria? Numa varanda daquelas?
Provando alpistes e quirelas?
Bebendo em bebedouros doces?
O mar, por vezes, o distraia.
Mas, voltava sua preocupação.
Tanta demora. Quem sabe um gavião?
Não. Maus pensamentos não.
De tanto olhar a cidade,
Começou a imaginar maldades.
Sobre a mangueira aos seus pés,
Sentia a brisa e a direção das correntes.
Bem-que-disse o bem-te-vi.
Lugar de passarinho não é aqui.
Tanta demora. Quem sabe o gato.
Não. Maus pensamentos não.
Observava a cidade de fato.
Passarinho que pensava.
Passarinho que aguardava.
Em meio a outras revoadas,
Buscava a amada.
Coração bateu mais forte,
Veio do norte um pio conhecido.
– Passarinho, bem-te-vejo.
– guarda-me um beijo.
– chego em breve-te-ver.
Passarinho fez um solfejo.
Raspou o bico no galho verde.
Ah! Que bom-te-ver!
Ben-te-quero minha Ben-querida.
Já estou ben-te-vendo…

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Um Dia Normal.

nascer

Nascer é imprescindível.
Toda aurora é previsível.
Subir aos céus como o faz o Sol,
É encantar amores, sobrepor-se ao fim.
O meio do dia é risível.
O meio da noite é imprevisível.
Na calada noturna paira amores e traições.
O silêncio que emana do poente,
É próprio daquele que guerreia silente,
Diante da liberdade que se ausenta,
Da prisão que felicita e ostenta
A mais vil das tormentas.
Os dias nascem para todos.
Caminham os homens previsíveis.
Acordam ao meio do dia os que fazem poesia,
Vão adormecer os filhos da Heresia.
Todo santo dia.
Passa a vida, estada temporária.
Enquanto o Sol desfila sua magnitude,
O tempo decresce e normaliza a atitude.
Os pobres geraram pobres.
Os ricos geraram ricos.
Alguns serão nobres.
Outros baterão cabeça,
Servirão a mesa e o corpo.
E pela servidão, pedirão perdão
Nos dias santos. Inanimados nas praças,
Nos bancos da rua, sorrindo para o nada.
Infeliz estada essa.
Onde o Sol, que nada promete,
Vê dourado o escravo esperando a promessa.
Precisa mais o homem de Deus,
Que Deus precisa dos homens.
Se Deus fosse Deus, acolheria os seus.
Nos tempos todo que passa o Sol
Jamais se viu tantas ironias.
O homem sustenta Deus,
Deus sustenta a minoria.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Céu Negro.

ocaso

Céu negro. Todo céu o é.
Deixa-o dourado o teu olhar.
Teu riso farto nessa boca úmida.
Isso o deixa dourado.
A luz do Sol, o oxigênio, a atmosfera em si,
São apenas cenários para teu corpo.
Universo singular é o corpo.
A pluralidade de teu canto rouco,
Tantas estrelas e manhãs soaram
De tuas palavras de boa noite,
Do teu silêncio de bom dia.
Por detrás de tanta nuvem,
O azul de nosso lençol.
Ao poente a revoada.
E a renda da fronha na borda de tua face.
Ao cair da noite teu corpo ilumina dentro mim.
Cheiros de lavanda e de um leve jasmim.
Sol cor-de-rosa. E prosa sem fim.
Céu negro. Todo céu o é.
Vejo pelos teus olhares
Os mares de lugares que jamais vi.
Pela manhã te acordará o bem-te-vi.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

Uma Abadia de Marias

Abadia

No ocaso do mundo e de mais um dia,
Uma abadia. Repleta de casos e de Marias.
Monjas solitárias, talvez não por quererem,
Mas por revelia ou pura simpatia.
Maria da Conceição, Maria de Guadalupe,
Uma evoca o coração, outra esculpe.
Maria, a Aparecida, Maria, a Compadecida,
Maria Intercessora, Maria professora.
Maria de Lourdes, Marias rudes.
Tantas Marias na abadia.
No ocaso do mundo e de mais um dia.
Maria Madalena ou Maria Bethânia,
Ungem os pés dos santos, usam mantos,
Caem em prantos na abadia.
Choram seus filhos, seus irmãos,
Maria da Graça, que acalma a praça,
Maria do Carmo que cura a ferida,
Marias da abadia, mulheres no ocaso.
Final de um dia, mães do mundo,
Parideiras das raças, ternas e calmas.
Maria do Socorro, Maria Goretti,
Por todos os cantos Maria reflete.
Maria de Lázaro, a agradecida,
Maria de Cleófas, a arrependida.
Marias da abadia, Marias de Nazaré.
Maria de Fátima, mulheres de fé.
No ocaso do mundo e de mais um dia,
Uma abadia. Repleta de casos e de Marias.
Falem por nós Marias, Maria mulher.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

Dicotomia

verde

O poeta é personagem, cheio de bagagem.
O homem que há no poeta é bobagem,
Mero descritor da sua e da alheia dor.
O poeta é um amealhador.
O homem é separador…
O meu, o seu, o nosso, amém.
Poeta mesmo é de ninguém.
O poeta é criador enquanto cria a dor,
A sua e a alheia, enquanto amealha a falha,
Enquanto fala de amor.
Há de ter paz o poeta, para que crie sua guerra,
Sua batalha efêmera, que vingue a sua não complacência.
O poeta perdoa, adora a dor da qual é adorador.
O homem no poeta não. Homem é julgador.
O poeta flutua. O homem precisa comer.
O poeta recua. O homem se põe a correr.
O poeta já está. O homem teima em chegar.
O poeta cria o lugar. O homem precisa ver.
O poeta é uma mentira de verdade.
O homem é uma verdade de mentira.
Enquanto um dá a vida, o outro tira.
O poeta quer o verde, o homem a esmeralda.
O poeta quer o azul, o homem a safira.
Poeta é floresta, homem é aresta.
Um se alegra com a festa, o outro é o que resta.
O poeta e o homem no poeta – louca dicotomia.
A fantasia da realidade e a realidade em fantasia.
Um é manchete fria, outro é poesia.

 

Fotografia de Cláudio Louro.