Delicadeza.

busao

Vem me abraçar delicadeza,
Senta ao meu lado, brinca tranquila.
Traga suas contas, suas equações,
Coisas de criança. Esbanje as emoções.
Traz sua massa, a colorida e a cefálica.
Cirande nas cores primárias, desenhe.
Traz tua arte pueril, o chão marrom,
O cão preto, a nuvem branca, encanta.
Que de sua boca pequena, morena,
Saiam grandes frases, amenas.
Pague minha comida, com moeda escondida.
Afague meu ego, deixa-me cego com teu riso.
Mostra tua saia cor-de-rosa, o bolsinho, o friso.
Tua mão pequena carrega teu futuro
No “M” bem desenhado, cachinhos enlaçados.
Purpurina nos cílios, arco-íris no caderno,
Um jeito terno de pedir carinho.
Cresça, liberte-se, toda menininha é uma prece,
Uma fadinha, que depois será ninfa.
E quando menos se espera, será deusa e mãe.
E outra pequenina rainha trará.
Para que se mantenha a sina e a doçura.
O cheiro de lavanda e a ternura.
Para o mundo não acabar.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Chão Batido

arvore

Fica bem claro,
Melhor andar pelo chão.
Depois da chuva,
Bem melhor então.
É o caminho de certa paz,
De árvores que te olham.
De nuvens fugidias, refrescantes.
A sensação meritória da verdadeira chegada.
Um lugar para estar e nele ser.
Um lugar de cheiros caseiros
Que vão do café, passam pelos temperos,
Volatizam no ar, juntos com o do Ipê.
Fica bem claro,
Melhor andar pelo chão batido.
Saber que o cão te sorrirá da entrada.
Dormir com barulho de chuva.
Senão, com o burburinho do riacho.
Um capacho dizendo “bem vindo”.
A visão da primeira estrela, que é planeta.
Uma luneta, uma caneta, cachaça e poesia.
De quando em quando, uma fotografia.
Para se lembrar da visita e da estadia.
O passo calmo, a alma calma, a rima.
Tudo em perfeita harmonia, uma elegia.
Morar onde se passeia.
As coxas firmes da parceira que me rodeia.
Numa ciranda graciosa que desnorteia.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

O Trilho e a Trilha.

trilhos

Que trilha seguir
Além daquela que vai
Aonde se quer ir
Sem sequer pensar em parir?
Cada trilho é um parto
Que muda de cor feito o lagarto
Quando busca comida para o prato
E tem a pele fria para não ter infarto.
A trilha é casada com o trilho
Deitado inerte no chão frio
Que nem imagina o calafrio
De cada trem e seu desafio.
O trilho é o xis do problema
Enquanto a trilha é teorema
Nem se importando com o tema
Desde que tudo acabe depois do cinema.
A trilha é puta e depravada,
Nem tem moral comprovada
Para se impor ao trilho, quase uma estrada,
Embora tenha a alma presa ao chão da caminhada.
A trilha vai à procura de defesa,
Em provas para que não seja presa.
Coitado do trilho que a água represa,
Contenta-se em ser escravo em Santa Tereza.
Mas que beleza.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Meu Leão.

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O leão pergunta com as mãos.
Surpreende-se com o olhar.
Ereto, como cabe ao leão.
Perfeito, como cabe ao homem.
Perplexo com a natureza.
Desbrava a criança que carrego ainda.
Em mim. Como se não houvesse fim.
Só recomeço. O avô no neto.
O leão é como uma segunda edição.
Revisada. Melhorada pela amplidão.
Leões velhos perdem os dentes, não a fama.
O leão novo afia os dentes do conhecer.
Toda criança deveria ser vista.
Vista com o olhar da poesia.
A poesia com qual olha o mundo.
Um leão olha com o corpo todo.
Sente com o corpo todo.
Fala com as mãos.
A boca do instinto.
A boca que pensa e não diz, mas sabe.
– Sou herdeiro da terra de meus antepassados.
O leão preservará a terra para os próximos leões.
E protegerá o feminino em sua volta.
Desde as folhas e sementes às árvores e montanhas.
O leão tem o céu por teto. A mulher por perto.
A paz na infância. Toda relevância.

 

Ao meu neto Leonardo.

 

Fotografia de passeio da escola. Poderia ser do Cláudio Louro.

 

 

A Cúpula.

a-cupula-e-a-copola

O mundo é uma cópula
Onde os homens criam cúpulas.
Vivem nas bolhas e nas rolhas.
Fazem tipos astronautas, cultos, magnatas.
Mas sobrevivem nas bordas.
Sustentados pelas cordas
Que movem as marionetes.
Telhados de zinco cancerígeno,
Abafam as ilusões.
Jardins de inverno nas lajes.
Ultrajes, chantagens, mendigagens,
Um comer de lambaris fritos,
Poucos fonemas conexos ditos,
E a presunção utópica de se pensar
No caviar russo, mesmo de bruços,
Enquanto o bolso e a cultura andam ruços.
O mundo é uma cópula
Onde os homens criam cúpulas.
Mas na orgia do dia-a-dia
Estão sempre de quatro
Aguardando o que lhes enfiam.
O homem é o cão do homem.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

O Olho que Tudo Vê.

embasso

O braço do destino,
No ranço do passo peregrino,
Te leva para o embaço da visão.
Uma coluna clara da justiça escura,
Uma toga que pune e curra,
Enquanto o olho do infinito,
Tudo enxerga e tudo grava.
Diante da flor, debaixo da balaclava,
A que antecede o capuz e à morte estúpida.
Sorri irônico o Torquemada, na cripta, em nome de Deus.
Ele ainda vive. Nos declives, nos meandros do poder.
E o olho de outra dimensão tudo vê.
E a boca da defesa nada fala.
Apenas mais uma ala do museu.
Há quem viva do passado.
E não sabe que já morreu.
Meu amor é branco e azul,
Como a ânsia de vômito.
Efervescente como um antiácido.
Uma árvore não é uma coluna,
Uma coluna não é uma árvore.
A ave não voa. Está estampada na parede.
Não se prende rede na árvore e na coluna.
Não haverá descanso.
Ou bem se vive, ou bem se morre.
Não há como satisfazer aos dois.
O relógio pintado não tem máquina.
O tempo pintado acumula poeira.
No museu só cabe a nata.
Os demais de fora que se dizime.
Não valem os côvados de uma capitania.
Poupem aos escravos.
Alguém há de cantar a tal liberdade.
E o olho que tudo vê, também é pintado.
Tal e qual ao Deus que o homem criou.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

Sou uma Irene.

rosa

Sou mulher.
Tenho em mim todos os tempos.
Sou a vaidade que não tem pecado.
Sou a confirmação da criação,
A eleita para a procriação,
Sou a vaidade feminina, aquela sem pecado.
Sou o recado divino, desde a tenra idade,
Até a maturidade, até na posteridade.
Sou a rosa amarela da alegria.
A rosa amarela da felicidade.
Sou mulher.
Tenho em mim toda a história.
Sou a fala que não se censura,
A humanidade pura,
O cheiro do aconchego.
Ando com minhas pernas,
Suporto tanto peso, tenho a poda,
Como a rosa amarela.
Diante de tanto menosprezo,
Sou a lágrima que te escuta,
A flauta que te encanta, tua cicuta.
Sou teu alimento. Sou mãe e argumento.
Sou mulher, a intercessora.
Aquela que traz paz e te lava a alma.
Sou a Terra. Sou mulher.
Sou a alma em gala.
Até em minha bengala tem a vaidade
Da idade e das caminhadas.
Sou mulher, enfeito a vida.
Quem me vê assim recolhida,
Não imagina toda a subida que fiz aos céus.
Colhi as rosas irmãs amarelas,
Debrucei em tantas janelas, molduras de beleza.
Sou mulher, a escolhida para ser tua mãe, irmã, amada.
Cada pétala que perco na estrada
Perfumam os caminhos, adornam os destinos.
Sou a rosa amarela, aquela da tela de um pintor.
Sou a vaidade sem pecado,
Minha bengala não é apoio, é adereço,
Extensão da minha mão para te alcançar.
É o espinho que me protege, o detalhe do traje.
Sou o espírito da força para que o barqueiro reme,
Para que o guerreiro se convença, que vença e volte.
E num aporte de ternura, reponho toda ventura,
Para que eles se sintam fortes.

 

(Para Irene Daves, minha alegria, minha tia)

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

 

 

O Olhar.

caido

O olhar que ocupa mais que oculta.
O olhar que seleciona mais do que coleciona.
Olhar para delicadeza e censurar a destreza,
Corromper o olhar alheio, como um meeiro,
Dividindo o que olha o terceiro.
Olhar que pune o imputável, pelo acordo deplorável.
Quero olhar para a folha seca, o tronco caído,
Aqueles que completaram o tempo vivido.
Quero emoldurar os exemplos, os templos.
Templos de sabedoria, tempos de maresia.
O olhar de quem confia. A tinta natural,
O pincel de quem pinta com a tinta da alegria.
Quero o olhar de quem se abaixa, para dar a mão,
Levantar o amigo, colher a semente e ajoelhar-se.
Para num ato de amor incontido,
Continuar a semeação da fraternidade.
Quero o olhar do tronco que destoa.
Aquele que encara a cidade e a lagoa,
Mas conhece do peixe e da canoa.
Quero o olhar de quem tem pena,
Daquele que se magoa, pelo concreto, pela proa.
Quero o olhar de paz, na lágrima da pessoa,
Que mesmo com a âncora do desatino
Presa ao pescoço faz dela um sino.
Dobra e tange, ama e voa.
O olhar curioso de um cego,
Aquele que, mesmo não tendo, imagina.
Aquele que que vai ao baile e dança em braile.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

 

Acabou.

acabou

Acabou. Foi só um dia.
Pouco para uns, muito para a borboleta.
Acabou. Foi só um beijo.
Pouco para o vulgar. Muito para a paixão.
Acabou. Foi só a ânsia sentida.
Pouco para o susto. Muito para a surpresa.
Acabou. Será só uma noite vindo.
Pouco para uns. Muito para o solitário.
Acabou. Foi só um adeus.
Pouco para quem deu. Muito para quem recebeu.
Acabou. Foi só a decepção sentida.
Pouco para o real. Muito para o sentimental.

 

Fotografia de Cláudio Louro.

 

Para meus amigos de luz, Pedro Paulo e Tânia.